Arquivado quarta-feira, abril 15, 2009 por Sérgio Lavos. 
Duas horas passadas, o tempo deixou de me doer. Três horas, e ele deixa de existir, não só em mim, como, acredito, no resto de mim, naquilo que não controlo. Quatro horas, e as minhas mãos estão tão frias, os pés tão frios; mas o que mais arrefeceu foi a alma, ali guardada a um canto do frigorífico de onde retiro alguma coisa para comer antes de ir dormir.
Algumas horas mais e uma réstia de insónia persiste em me arrefecer, até que num lampejo vazio, limpo de escaras, me deixo adormecer, e levo o tempo comigo; durante os sonhos, apenas o presente existe.
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Arquivado quinta-feira, março 12, 2009 por Sérgio Lavos. 
Os objectos são mais que matéria inerte. Criar uma ligação ao objecto, um amor, recusar a ideia de que cada objecto tem um prazo de validade. A relação com a ideia de mortalidade vai se afigurando evidente - a bela ideia da obra-de-arte inacabada.
Enquanto tudo estiver por terminar, tudo continua; a esperança das coisas mundanas é um espelho da ânsia de imortalidade - quem pode afirmar que o artista não se detém nestas banalidades? Preocupa-se, sem o confessar, simula, e por detrás desta máscara se oculta a sua grandeza.
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Arquivado quarta-feira, novembro 26, 2008 por Sérgio Lavos. 
O mar - costumava ouvi-lo na distância, sobre a terra e sobre o tempo.
Agora não o ouço; e a questão é esta: de que serve escrever poemas se já não ouço o mar, quando ele me desaguar nos sonhos, nas noites mais quentes de verão? Agora, o calor das noites de verão não tem nada que ver com a ingenuidade da poesia; o cinismo gelou esta bela e infantil recordação.
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Arquivado sábado, novembro 22, 2008 por Sérgio Lavos. 
Aproveitar para, num intervalo, pôr a correspondência em dia, significa chegar a casa, abrir o computador (será isto uma figura de estilo?) e começar a escrever. Não escrevo a ninguém, ninguém me escreve, deixo que a névoa do texto aceite o pouco que tenho a dizer. Quando se dissipa a vontade, regresso aos afazeres realmente importantes que me esperam. A concretude da banalidade é uma manta que cobre a inquietação das coisas insolúveis. Mas enquanto isso não sucede, desenrolo o novelo inútil da poesia, sem sequer conseguir me aproximar da desenvoltura de um gato (imaginário). Serve de alguma coisa escrever que nada serve de nada? A sucessão de palavras é uma ocupação inútil dos dias, é certo, mas o sentido estético desta multiplicação absurda obriga-me a dedicar algum desejo a esta espécie de cópula tântrica e estéril.
A minha correspondência com a morte: aqui estou, de longe, como se estivesse num território estrangeiro, alistado num exército condenado a não ter baixas, apenas espectros que esperam por uma madrugada que traga com ela a batalha. Não sinto nada, não vejo nada, nenhum pó cobre os meus ossos, e apenas o silvo de balas imaginárias se ouve; a sua trajectória irregular mantém-me desperto, e, de resto, as mãos que desinquietam as metáforas precisam da sensação de perigo, da ameaça.
Haverá alguma coisa mais importante que este diálogo distante? Aquilo que me empurra para fora da trincheira: o conforto de uma casa familiar na gélida noite, o crepitar do óleo no aquecedor, o filme certo a rodar no televisor, a imagem cristalizada ao toque do polegar. No fundo, tudo conta para a soma das frases; isto é igual a aquilo, e tanto se escreve contra o esquecimento como contra o frio: escrever para não arrefecer, não parar. Pôr a correspondência em dia.
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Arquivado domingo, novembro 26, 2006 por Sérgio Lavos. 
As criaturas falavam comigo de longe, mas ele as sentia perto. As criaturas diziam-lhe baixinho ao ouvido que eu seria o próximo homem a perder a visão, no meio de tantos. Disseram-lhe (disseram-me) que era o suficiente. Ele mexia as mãos, fingia ser. Eu admito que talvez vestisse uma camisola amarela que a mãe me oferecera no natal. Quando os automóveis pararam, eu avancei. Os outros espreitavam por buracos nos muros. Escutavam o que dizia, ou então fingiam não gostar do que ouviam. Pássaros bêbedos atiravam-se contra os cabos de alta tensão. As criaturas repetiam, repetiam, eu sorria, ele sorria. Por fora da camisola, a camisa. Um pano sujo, em tempos foi mecânico. Agora finge ser automático. Sujava as mãos com óleo. Ele espera que os automóveis parem. Para avançar. Sorrio, com um sorriso fugindo de outro, um sorriso que ameaça morrer, eu ameaço as criaturas porque elas são o seu sorriso. Recordo, hoje, agora, daqui a alguns minutos, os homens que trazem as algemas e prendem-no. É arrastado depois como um saco de detritos, transportado para um quarto onde é detonado um festim de centopeias a dançar. Carregam-me as criaturas, sou um peso morto para elas. Mas eu falo com elas. Admito que falo.
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Arquivado quarta-feira, novembro 01, 2006 por Sérgio Lavos. 
O que julgam saber de mim, o que esperam saber de mim? só porque me carregam em ombros, me arrastam. Por ser quem sou, por ter sido despojado da centelha que em tempos me animara, serei menos que os outros que passam na minha linha de vista, também já me comovi com a música, outrora ouvia na casa em frente uma rapariga de longos braços tocando um piano escondido no ângulo da janela, e as notas que subiam dali e pairavam em volta eram relâmpagos sacudindo o corpo por dentro, por vezes, muitas vezes, os que ao longe caminhavam viam-me chorar incontrolado e com certeza, de certeza que também se comoviam, que tem aquele homem, que mão invisível, mão-cheia de segredos, o toca, e por ele entra, porque chora? Apenas porque sou levado à força, apenas porque perdi a força e a vontade, não sou menos que os outros que não querem que eu seja como uma rocha, parado no espaço, querem que eu me mova através das ruas, das cidades, o que os incomoda é o meu imobilismo, por isso me carregam de lugar em lugar, ao acaso, mas dentro ainda adormece o meu corpo embalado pelo sopro incorpóreo que desce daquela casa onde um piano soa. Mais que a música, imagino ouvir a respiração da rapariga de longos braços enquanto toca, os esforços mínimos, o pulsar dos músculos sobre as teclas, os pés dançando nos pedais, tensamente controlados, a jaula de luz a transbordar de beleza, extensões estendendo-se sobre o tempo. Que me levem, me desloquem para casas desconhecidas, dentro de mim ainda vive o enlevo da música dilatando as veias e a carne. Viajo mas estou parado no tempo.
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Arquivado sexta-feira, outubro 27, 2006 por Sérgio Lavos. 
Não, não é como se a forma da violência fosse geométrica, ou definida. Por mim, poderia ser variável, assumir a mutação como essência. O dia que rouba o dia traz o mesmo, sempre o mesmo; de todo o espaço, como uma onda transversal ao mundo, vem. Mas se torço as mãos para dentro, elas doem. Falam como se partissem, mexem-se demasiado instáveis, plataforma em movimento. Ser cego, surdo, mudo, o que dizem. Oferecer num espasmo a natureza do corpo, abri-lo ao golpe que rasa. Um exemplo, concreto, de um velho encontrado morto, entregue ao deslizar do tempo. Quem poderá conhecer o espaço côncavo que as suas mãos deixam no soalho? Construiu pouco, o pouco que o passado restitui. Impelido pelo sopro sanguíneo da deslocação da terra sobre as esferas, agora nada é. Quem poderá o quê, com qual desculpa?
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Arquivado quarta-feira, outubro 25, 2006 por Sérgio Lavos. 
Em relação ao que me disseram para fazer, falando do que me impuseram, recordando as palavras exactas deles, uma coisa apenas; olho, e breve é a lâmina que corta o pão. Serão as minhas mãos que seguram na faca e cortam o pão. Mas pensava em algo de importante. Sem dúvida, importante. Definitivamente importante. As migalhas espalham-se em redor, ocupam quase toda a mesa. Chove lá fora como se chovesse dentro da minha cabeça, e a minha cabeça é uma daquelas lâmpadas que aparecem nos cartoons quando uma personagem tem uma ideia. Brilhante cérebro, já me disseram em tempos. Uma vez, no mínimo. Uma vez, olhava o mar da avenida, sentado num banco de madeira, de pés apoiados no muro baixo, olhava o mar de mãos entre as pernas, lembro as mãos que tremiam de frio, seria talvez inverno, verão não, de certeza, verão não. Fazia frio e eu estava como se dormisse num iglô abstracto de um esquimó, dormia como um urso polar e olhava o mar, parecia que uma lâmina (igual à que corta o pão, talvez) pairava sobre o mar, julguei que uma lâmina cortava o mar em dois, ideia familiar, desconheço a origem da informação, e isto é a verdade, disseram-me para dizer sempre a verdade, impuseram-me isso. Que não poderia mentir. E eu não minto e sorrio com modos delicados, sou um ser dócil. Como uma lesma preta sobre uma folha de erva húmida, sob a pata que evita a poça no carreiro. Eu obedeço, sou dócil como um vento do deserto aprisionado. Domado. Corto o pão e sem querer corto a mão que corta o pão, o sangue explode. Chupo o sangue e quase choro. Mas não choro, o sangue salpica a toalha florida, é pena o estado a que as coisas chegaram. A minha mão é uma ruína, um eco de coisas passadas ressoa nos ossos, e eu consigo ouvir tudo. Ou quase. O resto, proibiram-me. Obedeço. Quase tudo.
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Arquivado segunda-feira, outubro 16, 2006 por Sérgio Lavos. 
O que foge do lado de fora da janela, a noite regressa de um tempo em que era natural arrastar pelas ruas cadáveres de cães abatidos por engano em caçadas; ainda nos dentes traziam presas lebres de olhos muito abertos e sangue pintando um traço nítido tão nítido como as fotografias que amareleciam sobre as cómodas da casa velha - casa velha - mãos acompanhando o movimento dos carros na rua, aos repelões, aproxima-se uma língua de vento dos muros, atrás de si volteiam cintilações de areia, eles olham, e eu olho, e descubro que olhando apago os vestígios dos corpos na rua, é como se usando os olhos como estiletes escrevesse no alcatrão um rio brilhante sem marcas de sangue, água apenas, água apenas. Os olhos dos mortos clamam desde o abismo do tempo, muito empertigados, pose encenada para o disparo do fotógrafo, a moldura cinge o espaço, e é como se nesse espaço de fora chovesse, fora da janela onde a noite repercute um silêncio de cera, móvel e fulgurante. Andava às voltas no passeio, para a frente e para trás, às voltas, frente e verso, rodopiando até que o sentido do movimento fosse apenas incerteza do acontecimento, o que antes esteve e o que a seguir estará, os cães arrastam lebres e depositam-nas aos pés dos homens, noite ainda ardendo por sobre as casas, dentes brancos rogando atenção, um osso cinzento.
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