Arquivo Fantasma
Tudo o que vale a pena não está aqui.



Errar


Não fica,
no limite, nada por fazer,
dissemos a quem amamos
o que tínhamos de dizer,
escolhemos entre dúvidas
sempre a resposta certa,
e sempre errámos,
mas

se errar é adormecer
aconchegado por um novo dia
pelo qual toda a noite esperámos -
os cães ladrando
na distância, a bruma assentando na terra,
e um último carro na estrada
a caminho de casa -
gostava de poder errar
outra vez,
para no limite
poder olhar para as horas vincadas
pelo sono e achar que foram
a única vida que tive.

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Dylan


Quero ver-te nua
agora
estou a ouvir Bob Dylan
e quero ver-te nua
porque julgo amar-te
sem conhecer dicionário que tenha
uma definição satisfatória de amor
mas talvez querendo ver-te nua
ache que te ame porque
amo o santo lugar
de onde dizem que nasce a vida
com toda as palavras que a minha língua permite
- e a minha língua permite que sonhes, por isso é uma língua divina -
quero ver-te nua, o teu corpo a caminho da decadência
que eu amo
e vou amar
por toda a eternidade que a
a morte me permitir
quando já não puder amar
mas agora amo
o ângulo agudo do teu corpo
e a geometria exacta do teu corpo
com todas as linhas irregulares e imperfeições
de alma
amo-te porque apenas me consigo entender
e aos meus erros
amando-te
e por isso
quero ver-te nua
ao som de Bob Dylan
porque o amor
é o único egoísmo que se perdoa.

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Deserto dos Tártaros



O tempo rapina
o que os olhos vêem, confunde,
engana, leva a que uma sombra longínqua se transforme
num exército inimigo e uma breve imagem
em nítida recordação - os homens perdem
deste modo o seu íntimo combate,
e quando chega o fim,
e recomeça, o tempo é a própria sombra
que projecta -
ilusão.

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Querido diário


Com a idade,
um homem ganha vícios
e virtudes de que nem desconfiava quando novo;
e a noite é a necessária testemunha
destas consequências,
vai-se perdendo cabelos e o sono,
engodos e canções de infância;
nem a leda companheira de sempre,
melancólica e servil, a querida morte,
consegue aquecer o coração,
tomado pelo transtorno.

Não vale a pena puxar pelo cansaço,
usá-lo como desculpa para a fuga do costume;
é essa a decisão, preferir não erguer
o cerco à vida, deixar-se dormir
fora de tempo, sonhar com o dia
em que se entende que tudo o que os livros ensinam
é o início de um fogo - a sabedoria
o combustível eficaz da entropia.

Se não se aproximar de outra forma,
o vento nocturno é como a história, repetida,
e vai chegando com o fim do verão e o previsível frio,
circulando pelos ramos nus das árvores como
o tema que conduz esta barca ou o sangue
que sobe ao rosto no declinar dos confessados vícios
a que submeto a sublime amargura.

Ele por aqui está, e na companhia dele
regresso ao lugar onde o tempo se perdeu,
ao primeiro golpe da gadanha.

Não sei o que mudou - quando acordo,
tudo recomeça.

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Outono escaldante


O poeta em fuga:
estava escrito e por isso era simples, estava escrito
na claquete por cima de um nome negro - deve-se
levar sempre a sério uma boa história.

O poeta obedece aos desígnios do realizador:
agora move-te, agora pára; agora fala. E o poeta foge,
não quer falar, escrever é nada,
mais do que isto é o amor,
animal de quatro patas, vigilante,
que antecipa no escuro do quarto o movimento
certo para atacar.

Corta!
Agora;
o silêncio que se ouve será mais tarde
preenchido pela trilha sonora,
e o poeta (e a sua inconclusiva amante)
dança no fio que liga os dois tempos,
o antes e o depois da filmagem,
a cena do crime,
atirar a matar sobre os corpos
a que o escritor - longínquo êmulo do poeta -
decidiu entregar-se, reconhecer o mundo.

Recomeça tudo,
e a cinza do cigarro volta a cair na gola do sobretudo,
os olhos do poeta destroem
o dique de melancolia que detém o rosto da amante.

Tudo regressa ao seu curso, e ele parte
e volta e hesita, mas foge,
e arranca ao asfalto pouco menos do que o amor
ou um poema, o sangue, antes da última fuga.

Deve-se sempre levar a sério uma boa história:
e a dela era irresistível.

Corta!

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Os sacanas


Os sacanas escrevem e não sabem
que um tiro à queima-roupa é mais eficaz
que todos os versos da Terra Devastada,
quando se fala de ruína e morte -
e falam tanto da morte, conhecem-na
desde a infância, insistem -
quando o tiro que mata
é traiçoeiro e o sangue que fica
consegue ser sinal de nada,
uma poça que alguém há-de lavar,
à força de um jacto de água,
e a sombra do corpo se apaga,
irremediável.

Em vez de aprender estes ofícios,
miseráveis,
era bom que esses sacanas se alistassem
e conhecessem a guerra, o suor
medido em combates reais, arma em punho
cada menos metafórica à medida que o tempo
avança.

E se aprenderem a guerra, estarão
preparados para as emboscadas e os tiros
falsos, as traições e os golpes
aparados,
poderão caminhar e saber,
saber e não julgar que um verso
é mais violento do que um jorro de sangue
contra o rosto.

Os sacanas que não conhecem
o ritual e se limitam
a rasurar a vida, apagar-lhe os defeitos
e as feridas, as feridas
como se não fossem prenúncio de cicatriz,
rocha sedimentar, montanha
sem memória da areia -

nem todo o sacrifício conta;
um sulco fundo na carne,
desde a morte, é a única
prova de vida.

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A torre (2º desvio)


A romaria levava ao ponto
que concentra a força da cidade, e fomos
seguindo nela, água sem vontade,
afluentes em direcção a um rio mais importante.
Lojas desfilavam
alinhadas, e depois a rigorosa e decadente
geometria de um jardim francês serviu para sinalizar
a confluência. Uma mulher romena
(saída do filme de Haneke)
insistiu em ser salva naquele momento,
e se a torre não tivesse surgido,
como um fantasma na nossa linha de vista,
o postal não seria tão perfeito.
O perfil da mulher, o rosto curtido
pelo sol e pela renúncia,
recortava-se na moldura metálica,
em primeiro plano contra um fundo reluzente
de beleza moderna, potência erótica
de um povo a caminho de perder tudo.
Chamava por nós, e apenas poderíamos recusar
a verdade ou achar que tudo não passa de fingimento,
encenação - e lá fomos,
aproximados um pouco mais da perdição.

E a perdição é uma estrutura divina,
equilíbrio nascendo da deformidade.
A torre é um anão que se ergue sobre a cidade,
a distrai, um bobo de uma corte extinta e amaldiçoada.

Rente ao chão, é um falo que comunica com Deus,
e quando subimos ao céu, a cidade esvazia-se,
abdica da sua grandiosidade, é uma superfície
quase plana, alguns acidentes geológicos,
movimento em ponto pequeno, formigueiro.

Ainda fomos a tempo de acreditar um pouco mais no progresso:
como num filme de Tati, africanos de pele mais ou menos escura
jogavam às escondidas com os gendarmes, fugindo e regressando para
vender aos turistas souvenires ao dobro do preço.
O movimento agora próximo ganhava corpo e sentido;
enquanto os clowns conseguirem
fugir da polícia, acreditemos.

Deus vigia as suas ovelhas.

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Montmartre, 1º desvio


Quando decido escrever sobre a vida que vivo,
atraiçoo o que está fora dela -
encontro à hora certa os fantasmas da viagem,
a melancolia de uma tarde noutra cidade,
as pessoas na sua rotina comum,
e eu procurando as ruas de há cem anos
batidas por poetas que mal conheço;
a mesma caça de outrora,
mas menos verdade, uma verdade fora de prazo,
desajustada como as casas que respiram
os ares venenosos de uma modernidade nunca cumprida.

Vou subindo as escadas,
e cada degrau me vai esquecendo;
paro e desato a tirar fotografias,
tanto rosto que se me quer escapar,
mal sabendo que a mim não é permitido o registo
do presente nem a ilusão do passado.
Meti-me num avião sabendo muito bem o que esperava:
desencontrar as sombras dos meus poetas,
chegar ao lugar e percorrer
o bravo caminho de agora,
o que me resta, deitar notas ao papel
e depois lembrar o desencanto - mas não era assim, não era;
sorria enfiado num fato demasiado largo,
o sorriso compostinho dos turistas,
sorria tanto como aquele japonês de Nikon espetada
em direcção às encostas que desaguam na cidade,
o mar plano de onde se ergue a torre, maldita profecia
de uma humanidade perdida.
Sorria tanto como tantos que se moveram
desde suas casas, julgando que assim se comprometiam com
uma transumância que não passa de uma ideia de viajantes
submetidos ao suave adorno da burguesia - era mais um de muitos,
e pensava, sorrindo do lugar mais do que comum, na fuga para a Etiópia,
o desaparecimento.

Cadência vulgar,
a do passeio; os corvos fazem estremecer
a alma dos turistas. São muitos, muitos,
cada vez mais a caminho da derradeira casa de Truffaut.
A flor que lá foi deixada, já sei, já sei, de nada vale.
Regressamos pelas ruas a disparar contra um vazio
que se aloja nos ossos e um gato - esse, verdadeiro viajante -
em nós se enrosca. Damos-lhe pão que ele engole num golpe rápido e partimos,
embrulhamos o coração num pano seco, carregâmo-lo
até ao próximo cruzamento.

O trânsito, nunca pára.
A vida nunca pára.

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Não sou melhor


Não sou um homem melhor não porque
não consiga ser um homem melhor,
mas porque se fosse um melhor homem
não seria o homem que sou.

O que sou não incendeia o mundo nem inventa
prodígios, artifícios, não diz quantas vezes o número secreto
se repete na geometria privada de Deus,
não sabe qual a força necessária para equilibrar uma casa
nem a palavra certa para dizer quando o filho chora.

Sei muito pouco – e isto é dizer muito.

Mas porque escrevo (e não danço)
lanço no mundo o vazio e basta isso
para ser um pouco pior do que um homem,
um homem cuja amargura a cada dia estrangula;

Deixo que o vazio apague os erros,
a divina providência, a indecisão e a fraqueza
de recear pela vida do filho que por vezes ainda
carrego nos braços.

O vazio (com orgulho)
no lugar do homem - 
tudo se recoloca, uma nova perspectiva,
outra luz, a sua relativa importância,
quase nada,
nada.

Melhor do que uma desculpa,
aceitar tudo o que poderia ser - 
uma ilusão.

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