Arquivo Fantasma
Tudo o que vale a pena não está aqui.



Montmartre, 1º desvio


Quando decido escrever sobre a vida que vivo,
atraiçoo o que está fora dela -
encontro à hora certa os fantasmas da viagem,
a melancolia de uma tarde noutra cidade,
as pessoas na sua rotina comum,
e eu procurando as ruas de há cem anos
batidas por poetas que mal conheço;
a mesma caça de outrora,
mas menos verdade, uma verdade fora de prazo,
desajustada como as casas que respiram
os ares venenosos de uma modernidade nunca cumprida.

Vou subindo as escadas,
e cada degrau me vai esquecendo;
paro e desato a tirar fotografias,
tanto rosto que se me quer escapar,
mal sabendo que a mim não é permitido o registo
do presente nem a ilusão do passado.
Meti-me num avião sabendo muito bem o que esperava:
desencontrar as sombras dos meus poetas,
chegar ao lugar e percorrer
o bravo caminho de agora,
o que me resta, deitar notas ao papel
e depois lembrar o desencanto - mas não era assim, não era;
sorria enfiado num fato demasiado largo,
o sorriso compostinho dos turistas,
sorria tanto como aquele japonês de Nikon espetada
em direcção às encostas que desaguam na cidade,
o mar plano de onde se ergue a torre, maldita profecia
de uma humanidade perdida.
Sorria tanto como tantos que se moveram
desde suas casas, julgando que assim se comprometiam com
uma transumância que não passa de uma ideia de viajantes
submetidos ao suave adorno da burguesia - era mais um de muitos,
e pensava, sorrindo do lugar mais do que comum, na fuga para a Etiópia,
o desaparecimento.

Cadência vulgar,
a do passeio; os corvos fazem estremecer
a alma dos turistas. São muitos, muitos,
cada vez mais a caminho da derradeira casa de Truffaut.
A flor que lá foi deixada, já sei, já sei, de nada vale.
Regressamos pelas ruas a disparar contra um vazio
que se aloja nos ossos e um gato - esse, verdadeiro viajante -
em nós se enrosca. Damos-lhe pão que ele engole num golpe rápido e partimos,
embrulhamos o coração num pano seco, carregâmo-lo
até ao próximo cruzamento.

O trânsito, nunca pára.
A vida nunca pára.

Etiquetas:


Não sou melhor


Não sou um homem melhor não porque
não consiga ser um homem melhor,
mas porque se fosse um melhor homem
não seria o homem que sou.

O que sou não incendeia o mundo nem inventa
prodígios, artifícios, não diz quantas vezes o número secreto
se repete na geometria privada de Deus,
não sabe qual a força necessária para equilibrar uma casa
nem a palavra certa para dizer quando o filho chora.

Sei muito pouco – e isto é dizer muito.

Mas porque escrevo (e não danço)
lanço no mundo o vazio e basta isso
para ser um pouco pior do que um homem,
um homem cuja amargura a cada dia estrangula;

Deixo que o vazio apague os erros,
a divina providência, a indecisão e a fraqueza
de recear pela vida do filho que por vezes ainda
carrego nos braços.

O vazio (com orgulho)
no lugar do homem - 
tudo se recoloca, uma nova perspectiva,
outra luz, a sua relativa importância,
quase nada,
nada.

Melhor do que uma desculpa,
aceitar tudo o que poderia ser - 
uma ilusão.

Etiquetas:


História verdadeira


Fomos pela água, pelo rio,
cada um no seu percurso, atirando
cascas e pedaços de conversa um ao outro;
tínhamos bebido mais do que a nossa conta -
graças a um deus desconhecido -
e por isso podíamos falar de quase tudo,
da última foda à absoluta beleza
dos filmes de John Ford, sem precisarmos
de cuidar dos outros;
perdidos de nós próprios?
Reencontrados,
a caminho de um fim de tarde muito quente,
entre mãos e um ou outro toque
rápido no interior das coxas,
devemos ter negado à morte
alguns momentos de domínio,
sabendo bem que um dia ela voltaria
a reclamar o que de direito é seu.

Talvez aquele rio,
aquele rio, a água
espelhando o movimento das nuvens
em direcção à foz,
estivesse a perder a nitidez, o claro brilho.
E o meu rosto,
e o teu rosto,
cruzando esse movimento - não era o mesmo,
o teu não era o mesmo.

Olhámos para a superfície,
o gume liso da água: o limo e os detritos
arrastados pela corrente eram mais do que um sinal;
e quando nos afástamos da margem,
o esquecimento prosseguia na sua voragem
súbita.

Não importa.

Cada dia tem o seu regresso,
e mais vale aceitar esta verdade -
as outras são duras de mais,
não sei se conseguimos.

Voltámos pela água, vindos do rio,
e não havia mais ninguém, enquanto a porta não se abrisse,
deixando entrar o sol,
cortando a penumbra como uma língua de fogo.

Não importa.

O medo de um homem
é o seu salvo-conduto - o bilhete
que entregamos ao barqueiro, a tempo da viagem.

Etiquetas:


Técnicas antigas


Os pássaros nas árvores, em trânsito,
o vento leve de verão levantando as saias das mulheres,
as crianças brincam - sabem mais do que as regras
dos jogos em que se envolvem, riem
e não podem conhecer o futuro.

Na curva da rua da minha casa,
uma moto arranca folhas ao asfalto, e os adolescentes
parados na esquina admiram a beleza íntima
da máquina - intenções e argumentos resumidos a
uma rotina pacifica, os rapazes fogem das raparigas
com os olhos e não se entregam à técnica
furtiva da sedução.

Mas a verdade, mal ou bem, não se encontra
no esquema simples dos objectos ou na sequência dos dias;
muito menos nos hábitos regulares do engate,
outro modo de falar de genética, providência
de uma razoável tristeza,
programação.

Não sei até que ponto
me aborrece esta modorra,
saber que cada fenómeno, alegria,
é o resultado de uma combinação química diferente,
aquilo a que alguns insistem em chamar alma.

Não sei até que ponto, enquanto a tarde
se acomoda à noite, me vai doendo a desilusão,
terna companheira de cada dia,
único grande amigo que fiz, a bela ficção.

Etiquetas:


Um coração


Um coração íngreme e pleno
passeia-se pela cidade, e eu não o posso acompanhar,
ele vai e apenas o observo,
o movimento esquivo,
à procura em cada esquina de um pouco desse
sentimento sobre o qual se escreveram alguns tratados,
ah, mas não é o amor,
o coração quer um corpo de mulher,
e a sua doçura intermitente,
rio de corrente incerta,
uma mulher para conversar durante o tempo todo
que a tristeza decide pagar uma visita,
sem pressentir o fim do caso,
o momento em que os amantes se encontram
e preenchem o silêncio com banalidades,
ou então com a destruição da última parcela de desejo,
elidir o momento em que a erecção se esgota.

Um coração tomado pela febre da fuga,
e não o consigo controlar, vejo-o ao longe,
e já lhe sinto a falta, a dolorosa memória -
arde, e arde a sério, a humanidade que me resta.
Se o deixar ir, a caminho da derrota,
talvez ainda me salve.
De entre os cigarros que sobraram, escolho o menos amarrotado
e invento qualquer coisa: quando acabar de fumar este cigarro,
será o último. Mas, maldita analogia,
o desejo não é o último cigarro. Quanto tempo
ainda terei para fumar, deixar o papel ser comido pelo fogo,
terminar?

Etiquetas:


Um verão


Somos o dia por onde movemos
as mãos, a caminho de uma foz
uma estação, a última,
o comboio pára e o movimento não se
detém no fim da linha, outra carruagem
que nos espera e nos há-de levar à praia
tão cheia de gente burguesinha

e nós – oh, nós, tão burgueses,
submetemos a vida a uma precisão geral,
anafada, e percorremos o caminho
em direcção ao areal – pensamos no
filme onde imaginámos ver, a morte sobre a areia,
a morte comendo a juventude,
verme nojento a que demos uma casa,
a nossa casa, e o seu gume,
quando descemos ao longo de um fim de verão,
brinca com a paciência, testa-nos
a coragem e sobretudo a capacidade de submissão
à sua certeza e decisão.

Quietos, parados, lentos e dourados pelo sol,
contamos mentiras e regulamos a acidez que tempera
frases, nem de mais, nem de menos, medida certa,
como a daquela rapariga que se deita ao nosso lado
pedindo um pouco menos do que amor,
numa desfaçatez existencial desarmante -
o valor não é absoluto e de que valem os discursos
metafísicos perto da régua pura que mede
aqueles pulsos, braços,
quadrante das pernas, corte fundo no biquíni,
tapando a nudez de revista – e assim fica.

As regras estão escritas, e cada gesto novo
Repete o modo antigo, mas;

não será uma derrota assim tão grande
conhecer de coração as praias de infância,
a extensão de areia e os caniçais,
entrando lânguidos dentro da
mata nacional, a radiosa violência da urze,
a pele das pernas finas rasgada pelas giestas,
ao longe o mar, ao longe o mar,
o banho da tarde,
a água entre o regresso e a ameaça,
útero e morte, versos da mesma canção.

Não discordar, nunca discordar, dos que dizem
que desistimos – a idade adulta e os filhos
que ela nos oferece é o que de mais próximo teremos
da absolvição da felicidade; um testamento
que deixamos à próxima geração,
os nossos anos burgueses, bem gozados,
sereno simulacro de um verão.

Etiquetas:


Fraque e cartola


Não vale a pena usar
fraque e cartola
quando se mergulha as mãos em sangue e pasto,
sacar da polidez e do claro orgulho,
usar palavras de cordeiro sabendo
que a pele de lobo segue na sacola,
mais vale usar a espada ou adaga,
verbo simples sem necessidades metafísicas,
descrições extensas e montanhas russas
de estilo e excelso labor,
e de um golpe só, seguro e lesto,
aplicar a lâmina na carne dessa gente
que se dedica a deglutir as grandes massas,
porcos criados no lamaçal capitalista,
animais destinados ao abate,
pela massiva vaga do povo.

Seria assim, seria,
mas a roda esmaga mais do que os grãos
e torna farinha a vontade - ou o desejo, o desejo,
um lume fundo a precisar de avivamento, ar e movimento.
A revolução! E tudo,
com ponto de exclamação,
passa pelo despojamento, mas falar disso é
pecado, crime, fingimento.
Declinar o cheiro do dinheiro,
passar por ele e bem,
não dar o cu quando os porcos se arrebitam.

Recusar cartola e fraque, honrarias,
declinar a pedinchice, aleivosias,
pelo menos pensar que pensar nisso
mudaria a ordem regular do universo,
como se importasse muito em que dia
se erguerá a liberdade.

O sonho do cínico derrotado.

Etiquetas:


Um caderno


A linha foi-se apagando do caderno,
os pontos e as cedilhas, o movimento das curvas
e o rigor das rectas;
depois, o vinco no papel,
leito e fractura,
foi também aos poucos desaparecendo.
Dentro em pouco restaria apenas uma sombra,
um borrão de tinta ao canto da segunda página
e alguns vestígios de borracha colados à margem.

(apagar a literatura é o pior dos pecados)

Quando retirei o maço de folhas
descoladas
da mala de couro castanha (do tempo das viagens do meu pai)
e soprei o pó no fole de luz da casa velha

- e seria mesmo ali, ou antes na adega escura? -

lembrei-me de um dia, mas não era o certo;
uma névoa caíra sobre a data exacta,
e a espectacularidade do efeito (o isco perfeito da memória)
perdeu-se.
Mas foi na aula de português, e a professora (sem rosto agora)
entregou-me a redacção de um modo frio, uma tarefa.

Terá sido esse momento de charneira de que falam?

Talvez o vazio da página seja o tipo de resposta que mereço -
quem me manda abusar do sentimentalismo?

Letras que não estão lá, o poema deslumbrado,
de que somente eu tenho conhecimento;

Não há prémio que não tenha o seu reverso -
e que mérito há em escrever no vazio,
à espera que a morte funde o seu reino,
estabeleça fronteiras, se apodere?

E apodreça?

Etiquetas:


O presente


Duas horas passadas, o tempo deixou de me doer. Três horas, e ele deixa de existir, não só em mim, como, acredito, no resto de mim, naquilo que não controlo. Quatro horas, e as minhas mãos estão tão frias, os pés tão frios; mas o que mais arrefeceu foi a alma, ali guardada a um canto do frigorífico de onde retiro alguma coisa para comer antes de ir dormir. 
Algumas horas mais e uma réstia de insónia persiste em me arrefecer, até que num lampejo vazio, limpo de escaras, me deixo adormecer, e levo o tempo comigo; durante os sonhos, apenas o presente existe.

Etiquetas:


Rascunhos

Arquivos

Outros Lugares



eXTReMe Tracker